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Mostrando postagens de 2019

Poema do Menino Jesus - Alberto Caieiro

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Num meio-dia de fim de Primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu tudo era falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu tinha que estar sempre sério E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças. O seu pai era duas pessoas - Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque nem era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de...

E agora o que fazemos? Lya Luft

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Passaram as festas. Traçados os projetos, dados os abraços, reuniões de família e amigos superadas, boas e alegres ou chatas e fingidas. De repente cessa o tumulto e estamos sós diante da lista de boas intenções, no papel ou na memória. Ou, se formos mais realistas, apenas com esse desejo real de que as coisas andem direito, que a saúde aguente, que os afetos persistam, que a alegria seja maior do que a angústia, e que alguma coisa afinal se realize. Temos pela frente o chamado ano de eleições: há meses começaram as campanhas várias e variadas, as alianças certas ou bizarras, as mudanças, as traições óbvias ou sorrateiras, nesse relacionamento espúrio da política. Com exceções, procurando bem ainda encontramos em quem confiar, mas a máquina do poder é tão poderosa que é preciso lutar bem, torcer direito, batalhar de peito aberto para que tudo melhore. Lembramos os infelizes massacrados por deslizamentos e enchentes de dois anos atrás, cujas casas continuam destruídas, carros af...

Poder e dever na imprensa - Janio de Freitas

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Tanto quanto dependerá de Jair Bolsonaro e sua trupe ideológica, o Brasil e seus anos vindouros passam a depender da imprensa. Em vista do que o novo Congresso prenuncia e do visto nas altas instâncias da Justiça, quando seria necessário proteger direitos e a  própria Constituição , impõe-se a evidência: as instituições oficiais não estão em condições de defender as conquistas democráticas dos últimos três decênios. A responsabilidade pode ser excessiva para uma  imprensa  que não supera a vacilação, põe-se como terreno desnivelado de embates entre o interesse público e o interesse privado e, como novidade, já está ameaçada por Bolsonaro. A rigor, a missão nada excederia, porque já integra a concepção de jornalismo consagrada no século passado. O problema é que essa concepção encontra dificuldades aqui. Tanto no poder econômico, que abomina a liberdade de imprensa, como em vícios remanescentes em parte da própria imprensa. Entre eles, o conflito vivido entre ética e...