O Céu da Boca - Carlos Drummond de Andrade
Uma das sedes da nostalgia da infância, e das mais profundas, é o céu da boca. A memória do paladar recompõe com precisão instantânea, através daquilo que comemos quando meninos, o menino que fomos. O cronista, se fosse escrever um livro de memórias, daria nele a maior importância à mesa de família, na cidade de interior onde nasceu e passou a meninice. A mesa funcionaria como personagem ativa, pessoa da casa, dotada do poder de reunir todas as outras, e também de separá-las, pelo jogo de preferências e de idiossincrasias do paladar — que digo? da alma, pois é no fundo da alma que devemos pesquisar o mistério de nossas inclinações culinárias. A mesa mineira era grande, inteiriça e de madeira clara, só mais tarde, no “tempo do Venceslau”, substituída pela novidade da mesa elástica, que divertia a gente, mas era uma ruptura com o quadro estático da casa imperial. À esquerda e à direita, estiravam-se dois bancos compridos, sem espaldar, em que irmãos e parentes em visita se sentavam...