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Mostrando postagens de 2023

As guerras e as mães - Carlos Heitor Cony

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Um poeta latino, dos maiores por sinal, disse que a guerra é detestada pelas mães. Tantos séculos e tantas guerras depois, parece que somente as mães detestam as guerras. Elas perdem os seus filhos e, na maioria das vezes, não sabem por que eles lutaram e morreram. Desde que o presidente Bush proclamou a necessidade de mais uma guerra, o grosso da humanidade está protestando contra o conflito, mas invocando somente razões técnicas, econômicas e políticas. Os jornais e os debates nas TVs estão cheios de prognósticos sobre o comportamento da economia mundial, o abastecimento do petróleo, os blocos de interesses que poderão ser feitos ou desfeitos. Tanto os defensores da guerra como os que são contrários a ela apresentam mil motivos para justificar suas posições, mas esquecem o argumento principal, aquele que justamente as mães não esquecem: a perda de vidas humanas, geralmente de jovens que morrem na estupidez da luta, longe de casa, defendendo ou atacando causas discutíveis, que poderia...

“A internet deu voz a uma legião de imbecis” - Umberto Eco

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Eduardo Wolf narra entrevista com Umberto Eco, autor de "O nome da rosa", na qual foram abordados temas como a imprensa, a internet, o estado da cultura, além de aspectos de seu livro mais recente. O Castelo Sforzesco, em Milão, preserva tesouros da arte italiana, como a Pietà Rondanini, de Michelangelo. Um dos sóbrios edifícios residenciais em frente ao castelo abriga outro tesouro italiano: Umberto Eco, filósofo, crítico literário e romancista traduzido em mais de quarenta idiomas. O autor de O Nome da Rosa, romance ambientado na Idade Média que vendeu mais de 30 milhões de exemplares, lançou neste ano Número Zero - que chega ao Brasil nesta semana, pela Record -, um retrato crítico do jornalismo subordinado a interesses políticos. Na casa milanesa, onde conserva uma biblioteca de 30 000 livros (há outros 20 000 em sua residência em Urbino), Eco, 83 anos, recebeu VEJA para falar de jornalismo, internet, conspirações e, claro, literatura. Foi um estrondo a sua declaração, em...

Romanceiro de Inconfidência: 12 trechos por Bianca Peter

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  Fala inicial Ó meio-dia confuso, ó vinte-e-um de abril sinistro, que intrigas de ouro e de sonho houve em tua formação? Quem ordena, julga e pune? Quem é culpado e inocente? Na mesma cova do tempo cai o castigo e o perdão. Morre a tinta das sentenças e o sangue dos enforcados… – liras, espadas e cruzes pura cinza agora são. Na mesma cova, as palavras, o secreto pensamento, as coroas e os machados, mentira e verdade estão. Cenário O passado não abre a sua porta e não pode entender a nossa pena. Mas, nos campos sem fim que o sonho corta, vejo uma forma no ar subir serena: vaga forma, do tempo desprendida. É a mão do Alferes, que de longe acena. Eloqüência da simples despedida: “Adeus! que trabalhar vou para todos!…” (Esse adeus estremece a minha vida.) Do ouro incansável Por ódio, cobiça, inveja, vai sendo o inferno traçado. Os reis querem seus tributos, – mas não se encontram vassalos. Mil bateias vão rodando, mil bateias sem cansaço. Mil galerias desabam; mil homens ficam sepulto...

A avó, a cidade e o semáforo - Mia Couto

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  Quando ouviu dizer que eu ia à cidade, Vovó Ndzima emitiu as maiores suspeitas: – E vai ficar em casa de quem? – Fico no hotel, avó. – Hotel? Mas é casa de quem? Explicar, como? Ainda assim, ensaiei: de ninguém, ora. A velha fermentou nova desconfiança: uma casa de ninguém? – Ou melhor, avó: é de quem paga – palavreei, para a tranquilizar. Porém, só agravei – um lugar de quem paga? E que espíritos guardam uma casa como essa? A mim me tinha cabido um prémio do Ministério. Eu tinha sido o melhor professor rural. E o prémio era visitar a grande cidade. Quando, em casa, anunciei a boa nova, a minha mais-velha não se impressionou com meu orgulho. E franziu a voz: – E, lá, quem lhe faz o prato? – Um cozinheiro, avó. – Como se chama esse cozinheiro? Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegurava a pureza da peneira e do pilão? Como podia eu...