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Mostrando postagens de julho, 2025

Para viver um grande amor - Vinícius de Moraes

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  Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor. Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberda...

Mundo Grande - Carlos Drummond Adrade

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  Não, meu coração não é maior que o mundo É muito menor Nele não cabem nem as minhas dores Por isso gosto tanto de me contar Por isso me dispo Por isso me grito Por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias Preciso de todos Sim, meu coração é muito pequeno Só agora vejo que nele não cabem os homens Os homens estão cá fora, estão na rua A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava Mas também a rua não cabe todos os homens A rua é menor que o mundo O mundo é grande Tu sabes como é grande o mundo Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão Viste as diferentes cores dos homens As diferentes dores dos homens Sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso Num só peito de homem sem que ele estale Fecha os olhos e esquece Escuta a água nos vidros Tão calma, não anuncia nada Entretanto escorre nas mãos Tão calma! Vai inundando tudo Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos - voltarão? Meu...

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti

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  Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os ...

O galo que cantava para fazer o sol nascer - Rubem Alves

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Era uma vez um galo que acordava bem cedo todas as manhãs e dizia para a bicharada do galinheiro: __ Vou cantar para fazer o sol nascer... Ato contínuo, subia até o alto do telhado, estufava o peito, olhava para o nascente, cantava e   ficava esperando...  Dali a pouco a bola vermelha começava a aparecer, até que se mostrava toda, acima alas montanhas, iluminando tudo. O galo se voltava, orgulhoso, para os bichos e dizia: __ Eu não falei? E todos ficavam boquiabertos e respeitosos ante poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar pra fazer o sol nascer. Ninguém duvidava. Tinha sido sempre assim. Também o galo-pai cantara para fazer o sol nascer, e o galo-avô...  Tal poder extraordinário provocava as mais variadas reações. Primeiro, os próprios galos não estavam de acordo. E isto porque não havia um galo só. Quando a cantoria começava, de madrugada, ela ia se repetindo pelos vales e montanhas. Em cada galinheiro havia um galo que pensara a mesma coisa e julgava todos...

O Lutador - Carlos Drummond Andrade

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  “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos/mal rompe a manhã. / São muitas / eu pouco.  / Algumas tão fortes / como o javali.  /  Não me julgo louco.  /  Se o fosse teria  /  poder de encantá-las.  /  Mas lúcido e frio,  /  apareço e tento  /  apanhar algumas  /  para meu sustento  /  num dia de vida.  /  Deixam-se enlaçar,  /  tontas à carícia  /  e súbito fogem  /  e não há ameaça  /  e nem há sevícia  /  que as traga de novo  /  ao centro da praça. Insisto, solerte.  /  Busco persuadi-las.  /  Ser-lhes-ei escravo  /  de rara humildade.  /  Guardarei sigilo  /  de nosso comércio.  /  Na voz, nenhum travo  /  de zanga ou desgosto.  /  Sem me ouvir deslizam,  /  perpassam levíssimas  /  e viram-me o rosto.  /...