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Mostrando postagens de setembro, 2021

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond Andrade

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Quando nasci, um anjo torto Desses que vivem na sombra Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida As casas espiam os homens Que correm atrás de mulheres A tarde talvez fosse azul Não houvesse tantos desejos O bonde passa cheio de pernas Pernas brancas pretas amarelas Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração Porém meus olhos Não perguntam nada O homem atrás do bigode É sério, simples e forte Quase não conversa Tem poucos, raros amigos O homem atrás dos óculos e do bigode Meu Deus, por que me abandonaste Se sabias que eu não era Deus Se sabias que eu era fraco Mundo mundo vasto mundo Se eu me chamasse Raimundo Seria uma rima, não seria uma solução Mundo mundo vasto mundo Mais vasto é meu coração Eu não devia te dizer Mas essa lua Mas esse conhaque Botam a gente comovido como o diabo

Com licença poética - Adélia Prado

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Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

Até homens inteligentes gostam de futebol - Marilene Felinto

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(Cenas de um Casamento, filme de Ingmar Bergman) Um dia elas se casaram e viveram infelizes para sempre. Agora choram todo dia sobre o feijão com arroz que são obrigadas a cozinhar, choram sobre o leite derramado. Choram escondido no quarto de paredes-meias dos apartamentos do SFH. Às vezes soltam o choro desbragado na frente dos filhos mesmo, esfregando as tisnas das panelas nas cozinhas estreitas. Mal casadas, ou divorciadas perseguidas pelos ex-maridos, são economicamente subordinadas a eles.  Um dia se casaram -porque assim era, muitas sem sentir paixão de fato, e com pouca experiência sexual. Um dia engravidaram -porque assim era, todo mundo fazia, o marido queria etc. Um dia -de comum acordo com o marido- largaram o emprego para cuidar dos filhos que iam nascendo. Eram escriturárias, secretárias, bancárias. Afastaram-se do mercado de trabalho por mais de uma década em muitos casos. Agora estão na faixa dos 35-45 anos e amargam a condição de semi-escravas, numa dependência de ...

Dolores - Adélia Prado

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  Hoje me deu tristeza, sofri três tipos de medo acrescidos do fato irreversível: não sou mais jovem. Discuti política, feminismo, a pertinência da reforma penal, mas ao fim dos assuntos tirava do bolso meu caquinho de espelho e enchia os olhos de lágrimas: não sou mais jovem. As ciências não me deram socorro, nem tenho por definitivo consolo o respeito dos moços. Fui no Livro Sagrado buscar perdão pra minha carne soberba e lá estava escrito: “Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada, se tornou capaz de ter uma descendência…” Se alguém me fixasse, insisti ainda, num quadro, numa poesia… e fossem objeto de beleza os meus músculos frouxos… Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques, das que jamais verão seu nome impresso e no entanto sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas não recusam casamento, antes acham o sexo agradável, condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo e varrer a casa de manhã. Uma tal esperança imploro ...