Até homens inteligentes gostam de futebol - Marilene Felinto
Um dia elas se casaram e viveram infelizes para sempre. Agora choram todo dia sobre o feijão com arroz que são obrigadas a cozinhar, choram sobre o leite derramado.
Choram escondido no quarto de paredes-meias dos apartamentos do SFH. Às vezes soltam o choro desbragado na frente dos filhos mesmo, esfregando as tisnas das panelas nas cozinhas estreitas.Mal casadas, ou divorciadas perseguidas pelos ex-maridos, são economicamente subordinadas a eles.
Um dia se casaram -porque assim era, muitas sem sentir paixão de fato, e com pouca experiência sexual. Um dia engravidaram -porque assim era, todo mundo fazia, o marido queria etc.
Um dia -de comum acordo com o marido- largaram o emprego para cuidar dos filhos que iam nascendo. Eram escriturárias, secretárias, bancárias. Afastaram-se do mercado de trabalho por mais de uma década em muitos casos.
Um dia -de comum acordo com o marido- largaram o emprego para cuidar dos filhos que iam nascendo. Eram escriturárias, secretárias, bancárias. Afastaram-se do mercado de trabalho por mais de uma década em muitos casos.
Agora estão na faixa dos 35-45 anos e amargam a condição de semi-escravas, numa dependência de que não conseguem se livrar. Não são exatamente pobres. São de classe média baixa para média.
Um dia acreditaram (o casal acreditou) num sonho de ascensão social: a casa, os filhos limpos e cuidados, o carro, o seguro de vida. Largaram o emprego. Deu tudo errado. Separaram-se. Hoje o marido joga na cara a pensão minguada, o excesso de gastos. Elas, humilhadas, tratadas como vagabundas, ficam entre a resignação e a depressão.
Qualquer R$ 500 traria-lhes de volta a auto-estima, a confiança no futuro. Mas o mercado de trabalho fechou-se para elas, as coroas, as de meia-vida feito pneus, peças de uma engrenagem em desuso.
Condenadas, olham em desespero para os filhos mofinos, que precisam de comida e amor para crescer. Amor. Que amor? Correm para médicos, psicólogos do serviço público, benzedeiras, macumbeiros. Escrevem cartas para a revista, o jornal. Mal sabem que a doença delas é de origem social.
As que não se separaram, olham com estranhamento para o homem com quem já não dormem, apenas dividem o apartamento cuja prestação é o dinheiro dele que paga.
Estranham tudo nele. Têm nojo das pernas peludas enfiadas no bermudão que vai jogar bola. A paixão dele pelo futebol, antes aceita como uma mania perdoável, é olhada como um aleijão. Não compreendem por que até homens inteligentes gostam de futebol.
O silêncio cai entre eles como um meteorito do tamanho de um campo de jogo. Odeiam esses ex-homens que têm de aturar pelo meio da casa. No fundo, e por vários pequenos indícios com que recompõem suas vidas, acham que eles -atracados à bola e uns aos outros - "são gays enrustidos".
Com o advento da emancipação das mulheres, pensava-se que estava extinta a classe das donas-de-casa. Engano. Continuam a existir, o substrato mais infeliz e desrespeitado da sociedade. Formam uma oculta legião de loucas em potencial. Se se rebelassem, botavam fogo no mundo.
Folha de SP, 3 de dezembro de 1996
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