A resignação como cumplicidade
De Mário Sérgio Cortella
O escritor suíço Denis de Rougemont, um arguto
defensor da unidade européia e, especialmente, um estudioso da ocidentalidade,
disse algo (em meados do século passado) que inspirou discursos conhecidos de
muitos políticos: “A decadência de uma sociedade começa quando o homem pergunta
a si próprio: ‘O que irá acontecer?’, em vez de inquirir: ‘O que posso
fazer?’”.
A decadência (seja ela na sociedade mais ampla,
seja em quaisquer instâncias, como família, trabalho, política etc.) principia
quando o imperativo ético da ação é substituído pela acomodação e pela espera
desalentada, isto é, quando se abre mão do dever que emana da liberdade e
exige, para ser exatamente livre, uma intervenção consciente. Isso é aconselhado
em razão de um sorrateiro entorpecimento que acomete a muitos, aniquilando
pouco a pouco a capacidade de reagir e de apontar como fora de lugar muitas
coisas que parecem encaixar-se, sem arestas, na vida cotidiana e que precisam
ser fortemente rejeitadas, de modo que esta não dê lugar ao abatimento que
apenas aguarda, em vez de buscar provocar resultados.
Estamos nos acostumando —com rapidez e sem
resistência ativa— com alguns desvios que parecem fatais e inexoravelmente
presentes, como se fizessem “parte da vida”: violência, desemprego, fome,
corrupção e outros. É a prostração como hábito! E o conveniente pesar estampado
no rosto e nas palavras para disfarçar uma simulada impotência individual mas
que, no fundo, é expressão de um egonarcisismo indiretamente conivente. Tão
confortável assim pensar... Lembre-se, então, de Fernando Pessoa, para o qual
“na véspera de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas”.
Pode-se argumentar que, felizmente ainda há muita
esperança. Mas, como insistia o inesquecível Paulo Freire, não se pode
confundir esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Aliás,
uma das coisas mais perniciosas que temos neste momento é o apodrecimento da
esperança; em várias situações, as pessoas acham que não há mais jeito, que não
há alternativa, que a vida é assim mesmo... Violência? O que posso fazer?
Espero que termine... Desemprego? O que posso fazer? Espero que resolvam...
Fome? O que posso fazer? Espero que impeçam... Corrupção? O que posso fazer? Espero
que liquidem... Isso não é esperança, e espera. Esperançar é se levantar,
esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir!
Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de
outro modo. E, se há algo que Paulo Freire fez o tempo todo, foi incendiar a
nossa urgência de esperanças.
Seria possível também usar aqui palavras como
desalento, desânimo ou até covardia tolerante. Júlio Cortázar, o argentino que
deu novos contornos à prosa latino-americana dos anos 60 em diante, afirmava
que “a covardia tende a projetar nos outros a responsabilidade que não se
aceita”. Ou, pensado de outra forma, visite-se o romancista francês Jules
Renard, com sua obra permeada por ironias cruéis (uma delas, aqui representada
em 1957 por Cacilda Becker com o nome de “Pega-Fogo”): “Dando ouvidos apenas à
sua coragem que nada lhe dizia, ele absteve-se de intervir”.
Por isso resignar-se é, de forma contundente,
concordar involuntariamente ou até ser cúmplice passivo. Melhor ficar com o
vaticínio de André Destouches, compositor e diretor artístico da Ópera de Paris
no reinado de Luís 15; o músico, especializado em tragédias líricas (como as
que muitos pensam estar vivendo), advertia que “os ausentes nunca têm razão”.
Mário Sérgio Cortella - Caderno
“Equilíbrio”, Jornal Folha de S.Paulo, 8/11/ 2001
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