O avião que caiu centenas de vezes
de EUGÊNIO BUCCI
No mundo real, de aço, tijolo e gente, o avião da TAM caiu uma vez só. Foi em São Paulo, bem perto do Aeroporto de Congonhas. Mas na televisão, pelas telas do Brasil inteiro, o mesmo avião se destroçou centenas de vezes. Reconstituições animadas, chamas em câmara lenta, tudo se fez para prolongar o horror. Por que é que tem de ser assim?
Existe a resposta cínica: É notícia, um desastre com tais proporções merece todo o destaque nos meios de comunicação. Sem cinismo, a resposta não seria tão fácil. Que é notícia ninguém há de negar. Que os cidadãos devem ser informados sobre cada detalhe, também não se contesta. Mas o festival ininterrupto que perpetua o desastre na televisão não tem nada a ver com informação ou notícia. É show. Soa mórbido, mas é isso mesmo: como o desfile das escolas de samba ou as Olimpíadas, as catástrofes se convertem em show de TV, com a diferença de que o Carnaval e as Olimpíadas são shows um pouco menos apelativos.
A TV tem na informação jornalística um produto secundário. Seu negócio fundamental é o entretenimento. Daí a vocação para o espetáculo, o apelo à emoção. Mesmo os documentários não podem fugir à obrigação de emocionar. É o critério da emoção que faz com que imagens que já não informam nada de novo sejam repetidas sem parar. O gol de placa tem replays ao longo da semana. A trombada que matou Ayrton Senna também. O objetivo é fazer durar a emoção. Por isso, na televisão, as tragédias não acontecem simplesmente: elas ficam acontecendo, num gerúndio interminável que não é o tempo dos fatos, mas o tempo das sensações. Diante das chamas, dos corpos no chão, o telespectador se deixa aprisionar, ou melhor, se deixa entreter, atraído por aquilo tudo.
Entrevistada num dos programas sobre o acidente, uma testemunha contou que estava no quarto quando vislumbrou as chamas pela janela. Num impulso repentino, como numa recusa, fechou a janela. Mas, logo em seguida, abriu novamente. Precisava confirmar o que tinha acabado de ver. Olhou e ficou horrorizada. Talvez o telespectador alegue algo parecido: não desprega o olho do vídeo porque precisa ver para crer. Mas a televisão, ao contrário das janelas de verdade, não o aproxima de nada - ela protege de tudo. Quem viu pessoalmente as cenas do desastre se feriu na alma. Muita gente não conseguia dormir depois. Quem vê pela televisão as mesmas imagens se sente imune. Bebe um uísque, relaxa na poltrona. Sente um prazer estranho. Pede bis e é atendido.
Existe a resposta cínica: É notícia, um desastre com tais proporções merece todo o destaque nos meios de comunicação. Sem cinismo, a resposta não seria tão fácil. Que é notícia ninguém há de negar. Que os cidadãos devem ser informados sobre cada detalhe, também não se contesta. Mas o festival ininterrupto que perpetua o desastre na televisão não tem nada a ver com informação ou notícia. É show. Soa mórbido, mas é isso mesmo: como o desfile das escolas de samba ou as Olimpíadas, as catástrofes se convertem em show de TV, com a diferença de que o Carnaval e as Olimpíadas são shows um pouco menos apelativos.
A TV tem na informação jornalística um produto secundário. Seu negócio fundamental é o entretenimento. Daí a vocação para o espetáculo, o apelo à emoção. Mesmo os documentários não podem fugir à obrigação de emocionar. É o critério da emoção que faz com que imagens que já não informam nada de novo sejam repetidas sem parar. O gol de placa tem replays ao longo da semana. A trombada que matou Ayrton Senna também. O objetivo é fazer durar a emoção. Por isso, na televisão, as tragédias não acontecem simplesmente: elas ficam acontecendo, num gerúndio interminável que não é o tempo dos fatos, mas o tempo das sensações. Diante das chamas, dos corpos no chão, o telespectador se deixa aprisionar, ou melhor, se deixa entreter, atraído por aquilo tudo.
Entrevistada num dos programas sobre o acidente, uma testemunha contou que estava no quarto quando vislumbrou as chamas pela janela. Num impulso repentino, como numa recusa, fechou a janela. Mas, logo em seguida, abriu novamente. Precisava confirmar o que tinha acabado de ver. Olhou e ficou horrorizada. Talvez o telespectador alegue algo parecido: não desprega o olho do vídeo porque precisa ver para crer. Mas a televisão, ao contrário das janelas de verdade, não o aproxima de nada - ela protege de tudo. Quem viu pessoalmente as cenas do desastre se feriu na alma. Muita gente não conseguia dormir depois. Quem vê pela televisão as mesmas imagens se sente imune. Bebe um uísque, relaxa na poltrona. Sente um prazer estranho. Pede bis e é atendido.
Eugênio Bucci, jornalista, é professor de Ética na graduação e pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da USP.

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