Shopping Centers, o LSD da classe média

            Todo mundo deveria fazer pelo menos uma vez uma viagem pelo maravilhoso mundo aparente do Shopping Center Norte, na Marginal do Tietê, em São Paulo. Trata-se do correlato (sancionado, socializado, gratuito) da “viagem” por meio do LSD dos jovens intelectuais da década de 60.  As visões  paradisíacas, o distanciamento da realidade, a contemplação do mundo do consumo são oferecidos por este espaço laboriosamente construído, onde o mundo real não entra.
            Ao atravessarmos a porta de ingresso no local, a impressão que se deseja transferir é a do adentrar-se em um mundo puro. Puro de misérias, da  pobreza, dos pedintes, dos assaltos e da violência de lá fora; é também puro da sujeira e do excesso de “brasilidade” de nossas cidades, excesso de tristeza, de decepções, de frustrações e de aborrecimentos. Nesta viagem imaginária, deixa-se o mundo brutalizado do lado de fora.
            Aí se reproduz o “mundo” mas não exatamente o mundo como ele é, mas o mundo como as pessoas gostariam de vê-lo: cheio de cores e alegria, crianças brincando, lojas em tons alegres ostentando belas roupas, organização e bem-estar em tudo. É a visão positiva de que se esconde na ideologia que nos transmitem por todos os lados, quer na comunicação maciça, quer nos “papos” com amigos, quer no nosso próprio proceder, traindo pressupostos de uma outra ideologia. Mas, principalmente transmitidos pela cultura e na voz dos dominantes: a concepção do que na sociedade rege a ordem, a disciplina, a limpeza, a organização, a racionalidade, a honestidade e tantas outras categorias idealistas desejadas da cultura.
            Como esse quadro não existe de fato, ou seja, não há ordem nem harmonia em parte alguma da sociedade, mas somente conflito, desordem, rebelião, insatisfação, os nossos “organizadores da cultura, esses homens do marketing, que “adivinham” os sonhos das massas, planejam e constroem mundos parte.
            O Shopping é um deles: lá a natureza é reconstruída de acordo com as especificações do espaço e tudo obedece à mais calculada disciplina ambiental; nada pode demonstrar que a realidade social e pessoal sejam fato contraditórios, a saber, que neles não existe só o belo, o bom, o arejado, o cuidado, o limpo, mas também a sua negação, o feio, o ruim, o poluído, o abandonado, os sujos. Essa, entretanto, é a verdade e a expressão do verdadeiro, do empiricamente observável na realidade.
            A ideologia positivista, que é o suporte dos arquitetos desses “sedentos de prosperidade”, então, recria com fins mercadológicos e de maximização de lucros o universo todo repleto desses signos que transmitem puramente a positividade, a vida sem conflitos e materializam o mundo dos sonhos que povoa imaginário destas nossas sofridas massas populares(...).
            Os ambientes dessa viagem, entretanto, não servem somente ao visual. É preciso consumir: comprar roupas, tomar café, comprar sorvete, sentar-se em um bar.
             Essa necessidade funciona como uma satisfação ao complexo de culpa do visitante deste mundo, diante de tantas ofertas gratuitas, que lhe aparecem, próximas à sua casa, quase como presente. Deve-se agora pagar por isso; paga-se, porém, prazerosamente. Só o ato de poder passear lá dentro já é encarado por muito as pobres visitantes (velhos senhores e senhoras, crianças de colo com suas mães, casaizinhos de todas as idades) como uma dádiva: o aparente luxo, o organização, o “particular” das novidades da moda, da eletrônica, da culinária são oferecidas gratuitamente.
             Os restaurantes demonstram, de forma particularmente flagrante, o luxo e a variedade dessa viagem: no “Terraço” encontram-se, um após o outro, o churrasco (nacional), a Trattoria do Guappo, onde tudo é reforçado com as cores peninsulares verde e vermelha, a cozinha árabe, o Munique, onde os garçons são vestidos a moda da Baviera, e em todos eles há mesas na calçada: o freguês sente-se como estivesse na Piazza Santa Maria in Trastevere em Roma, na avenida dos Champs Elyssées em Paris, ou mesmo, para os mais humildes, na Plaza Mayrer em Madri. Não é proibido sonhar. Tudo ali convida para isso; é a própria materialização do sonho.
            Essas experiências de “domesticação”(no sentido original: trazer para dentro de casa) do social, do publico, do aberto, permitem ao freqüentador uma sensação parecida com os cafés europeus. Nada de esmolas, nada de medos de assaltos, nada de preocupação com adaptação, língua, costumes, etc.: shopping abrasileirou o estrangeiro em você. Basta um “pulinho”, que já se está lá.

            Enquanto em São Paulo os cafés de rua são suprimidos e substituídos por lojas, deixando o lado prazeroso da cidade, sua face “romântica”, progressivamente suplantada pelo comércio gastronômico ligeiro e desconfortável (nada existe aqui como os restaurantes europeus de tradição hispânica, por exemplo, que oferecem todo o conforto no café da manhã com mesas e garçons, e utiliza ao mesmo tempo esse espaço e o pessoal para o almoço e o café da tarde), enquanto nossa vida urbana deteriora-se a olhos vistos, no mundo artificial do shopping isto retorna, agora “purificado”, pasteurizado das bactérias infestas de realismo ambiental.
Ciro Marcondes Filho, yQuem manipula quem? Poder e massas na indústria da cultura e

da comunicação no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1986.

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