A "não-casa" e o "não-ônibus" - Marilene Felinto
| A periferia sabe que não faz parte do tecido urbano. Odeia a cidade, que só não a odeia com igual intensidade porque não a conhece de perto. Tudo na periferia é não: a arquitetura da invasão constrói a "não-casa", o perueiro dirige o "não-ônibus". "Perueiro até os ossos", diz o adesivo da perua clandestina que circula pela hoje inadministrável cidade de São Paulo. A violência dessa categoria de motoristas, os perueiros, a virulência com que eles reagem às investidas de legalização, incendiando ônibus, ameaçando, dirigindo criminosamente, espanta. "Perueiro até os ossos": como interpretar essa frase senão como uma mensagem de que o motorista está disposto a matar ou morrer? A revolta dos perueiros expressa o ódio represado durante todo um século por uma população expulsa dos confortos do urbanismo, vítima da exclusão social e espacial. Desde os tempos da chamada Revolta da Vacina (1904), os historiadores e sociólogos alertam o poder público para o fato de que as camadas populares não toleram invasões truculentas na organização de sua sobrevivência e no interior de suas moradas. O poder público nunca se deu ao trabalho de compreender o espírito e as necessidades da multidão. Colhe o que plantou: a favela, a periferia gigante, a perua clandestina e assustadora. No caso específico de São Paulo, hiperpopulada e sem poder público -uma Câmara Municipal bichada pela corrupção, um prefeito desacreditado e incompetente-, a situação é dramática. A periferia padece do mais flagrante abandono, está ausente dos projetos de urbanização (quando existem), do mínimo de estrutura de saúde, educação, transporte e segurança pública que funcione. Precisa de tudo e não tem nada. Cria, na desordem, suas próprias leis internas -indecifráveis para autoridades e elite econômica. Não há elos entre a massa da população e os representantes do poder. A periferia revela então sua face conturbada e indisciplinada, seus hábitos inadequados, seus antros de miséria. As palavras são da historiadora Maria Cristina Cortez Wissenbach, em estudo que trata das moradias populares no fim do século 19 (!!) em São Paulo, dos cortiços, das habitações coletivas, das favelas e das maneiras diversas como as camadas populares se viam obrigadas a ocupar o espaço social, expulsas que eram pelos sanitaristas dos cortiços e moradias coletivas. Os sanitaristas que combatiam, então, epidemias de febre amarela ou varíola. "As favelas e os cortiços passaram a ser conceituados como "não-casas", vistos como núcleos de desordem, insalubres e promíscuos." (...) Pois bem, passado um século, o processo continua: os flagrantes do cotidiano das classes populares só vêm à luz quando acontecimentos excepcionais quebram bruscamente a rotina da cidade, quando emergem os conflitos, as tensões e os descompassos diluídos no ritmo do dia-a-dia. Os sanitaristas de hoje agem como os de ontem: já que os problemas não são saneados em sua origem, já que não se constroem casas para a população das "não-casas", já que não existem ônibus para a população dos "não-ônibus", a autoridade caça à bala os perueiros clandestinos, que caçam a ferro e fogo a autoridade. É a nossa lenta guerra civil. São Paulo, Terça-feira, 01 de Fevereiro de 2000 |
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