ENEM - Por que tantos zeros na redação?

Quase 300 mil participantes do Enem 2014 entregaram a redação em branco. Mais de meio milhão de estudantes tiraram nota zero na prova, o equivalente a 8,5% do total: 1 em cada 12 zerou a redação. Não adianta culpar a vítima.

Cada aluno só dá aquilo que tem, o que lhe foi fornecido, trabalhado, estimulado. E não creio que o problema seja só o professor. Muito provavelmente da cultura, ou seja, daquilo que se cultiva: o adulto não lê, o pai não lê, o professor não lê e por aí vai. Ídolos e referências são "celebridades", sem terem feito absolutamente nada célebre em toda a sua vida. Jovens críticos e comprometidos não estão em capas de revista.

Penso como o filólogo Othon Moacyr Garcia (1912-2002) autor de "Comunicação em Prosa Moderna", de 1967. 
Não me canso de lê-lo nesta página:
Aprender a escrever é, em grande parte, se não principalmente, aprender a pensar, aprender a encontrar idéias e a concatená-las, pois, assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou não aprovisionou. Quando os professores nos limitamos a dar aos alunos temas para redação sem lhes sugerirmos roteiros ou rumos para fontes de idéias, sem, por assim dizer, lhes ‘fertilizarmos’ a mente, o resultado é quase sempre desanimador: um aglomerado de frases desconexas, mal redigidas, mal estruturadas, um acúmulo de palavras que se atropelam sem sentido e sem propósito; frases em que procuram fundir idéias que não tinham ou que foram malpensadas ou mal digeridas. Não podiam dar o que não tinham, mesmo que dispusessem de palavras-palavras, quer dizer, palavras de dicionário, de noções razoáveis sobre a estrutura da frase. É que palavras não criam idéias; estas, se existem, é que, forçosamente, acabam corporificando-se naquelas, desde que se aprenda como associá-las e concatená-las, fundindo-as em moldes frasais adequados. Quando o estudante tem algo a dizer, porque pensou, e pensou com clareza, sua expressão é geralmente satisfatória.

Todos reconhecemos ser ilusão supor – como já dissemos – que se está apto a escrever quando se conhecem as regras gramaticais e suas exceções. Há evidentemente um mínimo de gramática indispensável (grafia, pontuação, um pouco de morfologia e um pouco de sintaxe), mínimo suficiente para permitir que o estudante adquira certos hábitos de estruturação de frases modestas mas claras, coerentes, objetivas. A experiência nos ensina que as falhas mais graves das redações dos nossos colegiais resultam menos das incorreções gramaticais do que da falta de idéias ou da sua má concatenação. Escreve realmente mal o estudante que não tem o que dizer porque não aprendeu a pôr em ordem seu pensamento, e porque não tem o que dizer, não lhe bastam as regrinhas gramaticais, nem mesmo o melhor vocabulário de que possa dispor. Portanto, é preciso fornecer-lhe os meios de disciplinar o raciocínio, de estimular-lhe o espírito de observação dos fatos e ensiná-lo a criar ou aprovisionar idéias: ensinar, enfim, a pensar.

O que nós, Fernando Santana e eu, temos feito, portanto, é pegar um aluno às vésperas do ENEM ou dos vestibulares, no momento de sua transição para a vida adulta e, numa operação tão árdua quanto fascinante, ensinar-lhe a pensar, ler e escrever. Claro que seríamos todos muito mais felizes com bem menos zeros, se este aluno tivesse isso aprendido, desenvolvido e estimulado durante os seus 16 ou até 20 anos de vida,  e  pelo menos 12 anos dentro da escola. Mas isso acontece na proporção de 250 notas 1000 para mais de 6,2 que fizeram as provas. 
Melânia Costa - jornalista e educadora. 

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