Intolerância, agressividade e violência
Governo Federal lança portal para reduzir crimes de intolerância na Internet. O portal visa estimular as denúncias contra crimes de agressão e intolerância na Internet. O conselheiro do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, DANI RUDNICKI, fala sobre o espaço virtual.
Intolerância - Mario Sergio Cortella
CANAL LIVRE - Parte 1 - https://www.youtube.com/watch?v=vNJZjqyyuEQ
A agressividade rude na Internet
Por que somos tão desagradáveis com os outros no ambiente online? Seja no Facebook, no Twitter, em grupos de discussão - nós dizemos aos outros coisas que jamais diríamos pessoalmente. À esta altura, já não deveríamos ser mais sábios?
O anonimato é uma força poderosa. Esconder-se atrás de um apelido falso faz com que nos sintamos invencíveis e invisíveis. Não importa que em muitos ambientes não estamos tão anônimos quanto pensamos - não importa que não sejamos nada anônimos no Facebook. Mesmo quando estamos sob nossas identidades verdadeiras, nós nos comportamos mal.
De acordo com um estudo prestes a ser publicado, realizado por pesquisadores das Universidades de Columbia e de Pittsburgh, navegar pelo Facebook diminui nosso autocontrole. O efeito é mais pronunciado entre aqueles internautas cuja rede do Facebook é composta por amigos mais próximos, dizem os pesquisadores.
Em nossa maioria, apresentamos uma imagem melhorada de nós mesmos no Facebook. Esta imagem positiva - e todo encorajamento que recebemos, na forma de "curtidas" - eleva nossa autoestima. E quando nós estamos com o ego inflado, nós tendemos a ter baixo autocontrole.
"Pense nisso como uma espécie de licença: você se sente bem a respeito de si mesmo, então você se sente no direito de tudo", afirma Key Wilcox, professor assistente de marketing na Faculdade de Administração da Universidade de Columbia e co-autor do estudo. "E você quer proteger esta imagem melhorada, o que pode explicar por que as pessoas reagem tão negativa e fortemente contra aqueles que não compartilham suas opiniões". Esses tipos de comportamento de baixo autocontrole e ego inflado "aparecem frequentemente também em pessoas embriagadas, sob o efeito de bebidas alcoólicas", completa Wilcox.
Os pesquisadores conduziram uma série de 5 estudos. Em um deles, perguntaram a 541 usuários do Facebook quanto tempo eles passam na rede e quantos amigos próximos têm em sua rede de contatos. Também perguntaram a respeito de suas vidas fora da internet, incluindo questões sobre o uso e dívidas no cartão de crédito, seus pesos e hábitos alimentares e quanto tempo passam socializando com pessoas reais por semana.
As pessoas que passam mais tempo online e que têm uma alta porcentagem de amigos próximos em suas redes de contato estão mais propensas a comer compulsivamente e ter maior índice de massa corporal. Também são mais propensas a ter dívidas no cartão de crédito, a pesquisa revela. Outro estudo revelou que as pessoas que navegam no Facebook por 5 minutos e têm laços fortes em sua rede de contatos estão mais propensas a escolher como lanche um biscoito de chocolate do que uma barra de cereais.
Em um terceiro estudo, os pesquisadores deram aos participantes uma séries de anagramas impossíveis de serem resolvidos, mais avaliações cronometradas de QI - então mensuraram quanto tempo eles demoraram para desistir dos testes. Eles descobriram que as pessoas que passam mais tempo no Facebook são as mais prováveis de desistir mais rapidamente de executar tarefas difíceis. Um representante do Facebook se negou a comentar os resultados.
Por que somos tão agressivos online? Considerem um comentário recente, feito para esta coluna na página do Facebook, de uma pessoa que sequer conheço: "Por que eu deveria sequer pensar em escrever para você? Você não responderia mesmo".
Nós somos menos inibidos no ambiente online porque não temos que ver a reação da pessoa a quem estamos nos dirigindo, diz Sherry Turkle, psicóloga e profesora de estudos sociais em ciência e tecnologia do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Porque, enquanto online, é muito mais difícil de enxergar e focar no que nós temos em comum, daí temos a tendência de desumanizarmos o outro, afirma.
No caso do Facebook, seu próprio nome é parte do problema. "Ele nos promete um rosto e um local onde teremos amigos", afirma Turkle, que é ainda autora do livro "Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other" (Sozinhos acompanhados: Por que esperamos mais da tecnologia e menos um do outro). "Se você lê algo desagradável lá - no seu local de amigos-, você não está preparado para tal. Sente-se duplamente ofendido, então ataca de volta".
Estamos em um período propício para discussões políticas, como Chip Bolcik pôde perceber. Narrador de TV, 54 anos e cuja filiação política consta como Independente, Bolcik mora na California e gosta de publicar questões políticas na sua página do Facebook. "Estou muito interessado no quê pensam as pessoas que têm opiniões políticas diferentes das minhas", ele diz. "E, às vezes, eu escrevo coisas provocativas para me divertir vendo as pessoas 'gritarem' umas com as outras".
Nos dois últimos meses, Bolcik perdeu dois amigos - da vida real - devido às suas discussões políticas. O primeiro amigo zangou-se após Bolcik ter publicado uma provocação pedindo que as pessoas respondessem se Mórmons são Cristãos. "Você está tão por fora que você nem sabe do quê está falando", ela escreveu na página dele, posteriormente seguido por um "Você é um imbecil". Bolcik a bloqueou de sua página: "Vou permitir o livre debate até que alguém me irrite", disse. Às vezes, ele apaga completamente os tópicos e suas discussões.
A segunda amizade acabou ainda mais abruptamente, depois de um dos amigos mais antigos de Bolcik ter repetidamente ofendido a ele e vários de seus contatos do Facebook. "Ele estava esbravejando sobre política, ao invés de a debater", disse o narrador. Ele escreveu para seu amigo, dizendo que o bloquearia de sua página se ele não esfriasse os ânimos. Em resposta, o amigo o repreendeu usando palavrões e acabou com a amizade no Facebook, deixando Bolcik "bem chateado".
A saída
Para a professora de Psicologia Sheyla Fernandes, da Universidade Federal de Alagoas: A saída é o treino para o controle da manifestação preconceituosa por meio da lei. “É preciso que aprendamos a olhar o outro de maneira humana. A punição ensinará as próximas gerações a não fazer piada com o outro seja pela cor, origem, religião ou opção sexual”, diz. O problema, segundo ela, é que sempre vai haver grupos diferentes em tensão, em conflito. “A luta contra o preconceito é permanente e fundamental para a humanização e a civilização da sociedade.”
Para o psicólogo Christopher Rodrigues em Violência e agressividade: Uma crise de sentidos A sociedade adoeceu e encontra-se cada vez mais distante do seu projeto, de seu plano existencial e sua capacidade de auto-realização; algumas mudanças podem nos levar a novas posturas, como sugere Rogers em sua psicoterapia. Ser mais empático com os problemas dos outros, nos colocando na posição de quem está sofrendo; aceitarmos mais as pessoas em seus erros e acertos, discrepâncias e não tentarmos modificá-las em nome de nossas crenças, e desenvolver a autenticidade como uma postura conosco e com o mundo, parece delinear e revelar novos sentidos para o mundo. Acreditar nessa postura e praticá-la não pode gerar uma reação tal qual a violência tem gerado, fazendo dessas atitudes uma prática recorrente?
Para isso é preciso começar um exame interior. Por que algumas coisas conseguem “me tirar do sério” ao ponto de agredir? Será mesmo que se agride por que simplesmente incomoda, porque ofende a moral ou porque ameaça um pedaço de nós que não ousamos revelar? Aceitar-se na totalidade é o primeiro passo para aceitar o outro e propagar essa postura humanista que o mundo contemporâneo carece; é o início da recuperação do sentido esvaziado, perdido.
A saída
Para a professora de Psicologia Sheyla Fernandes, da Universidade Federal de Alagoas: A saída é o treino para o controle da manifestação preconceituosa por meio da lei. “É preciso que aprendamos a olhar o outro de maneira humana. A punição ensinará as próximas gerações a não fazer piada com o outro seja pela cor, origem, religião ou opção sexual”, diz. O problema, segundo ela, é que sempre vai haver grupos diferentes em tensão, em conflito. “A luta contra o preconceito é permanente e fundamental para a humanização e a civilização da sociedade.”
Para o psicólogo Christopher Rodrigues em Violência e agressividade: Uma crise de sentidos A sociedade adoeceu e encontra-se cada vez mais distante do seu projeto, de seu plano existencial e sua capacidade de auto-realização; algumas mudanças podem nos levar a novas posturas, como sugere Rogers em sua psicoterapia. Ser mais empático com os problemas dos outros, nos colocando na posição de quem está sofrendo; aceitarmos mais as pessoas em seus erros e acertos, discrepâncias e não tentarmos modificá-las em nome de nossas crenças, e desenvolver a autenticidade como uma postura conosco e com o mundo, parece delinear e revelar novos sentidos para o mundo. Acreditar nessa postura e praticá-la não pode gerar uma reação tal qual a violência tem gerado, fazendo dessas atitudes uma prática recorrente?
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