"Não li e não gostei" - ando com preguiça desse clima

Vou repetir parte da minha aula de sábado passado. Falei sobre as 10 estratégias de manipulação de massas do Chomsky... Pior que essas estratégias é o clima de FlaXFlu, que favorece a aplicação delas. Alguém pensa por mim, e eu repito sem dados, sem oposição, sem reflexão. Há truques hiper velhos por trás disso.
A bomba da vez (para vender jornal, explodir em hashtags e fabricar salvadores) é qualquer proposta (p r o p o s t a ) de qualquer natureza. seja ela de legislar sobre relações homoafetivas, ou aumentar a largura das calçadas ou aumentar a jornada de trabalho ou o formato do ENEM. É só a da vez, porque a todo momento surge outra, o que me dá um ótimo pretexto para eu resumir o que vimos em sala.
Pode ser que a proposta do ENEM ou da mudança nas calçadas seja bem ruinzinha mesmo ou péssima ou inaceitável... provavelmente será em alguns de seus aspectos... mas, até que se leia o texto, é só uma notícia, nem chega a ser informação. Quando apresentada, qualquer proposta, como a de seu namorado ou namorada para morarem em outro país, por exemplo, terá um caminho a ser percorrido até que venha a ser um projeto exequível. É assim também nas empresas e em nossas carreiras. O importante é que propostas sinalizam mudanças e nos chamam para ficar atentos, mas não são fatos consumados. E é ai que mora o perigo: quando passamos a vê-las como fatos consumados, como algo não passível de discussão e de ajustes. Então, "respira... relaxa...". Usemos o lado esquerdo do cérebro. Lembremos de Rubem Alves no texto Ganhei Coragem: "a razão é silenciada pelas emoções coletivas".
É indiscutível que não reunimos argumentos vitais para uma rejeição madura, consciente e consistente, quando algo novo é proposto e não nos dispomos a analisá-lo, quando não buscamos ver com nossos próprios olhos nem discutir suas razões e benefícios. Perdemos, então, a oportunidade de dizer: "Isto não queremos, por isso ou por aquilo.. O que eu queremos é..."
Sempre foi assim, é assim e assim será. Enquanto se repete cegamente "sou contra" ou "sou a favor", perde-se a oportunidade de reunir argumentos convincentes. Assim se aprovam guerras e verbas e cortes e privatizações e ações desumanas, desde que o mundo é mundo...
"Apelou, perdeu!", aprendemos quando crianças. Assim se perde antes de começar a luta. Birra cega não ganha briga de cachorro grande. Releia Ganhei Coragem, de Rubem Alves: "O povo é a massa de manobra sobre a qual o espertos agem".
Em jornalismo, chamamos esse auê provocado antecipada e desinformadamente de "balão de ensaio". Ele é racionalmente provocado pela imprensa ou pela fonte da notícia que deseja esvaziar a discussão. Não nos iludamos: é briga de raposas velhas.
Velhos truques, como a desinformaçao e a mudança de foco. Cria-se uma histérica polêmica com uma notícia rasa que as pessoas passam a defender ou atacar à exaustão. Isso muito antes que seja realidade. Quando de fato acontecer, a novidade vai passar desapercebida, terá cheiro de notícia velha. Acaba acontecendo, sem resistência significativa, exatamente o que não se queria ou se temia, porque ninguém mais estará atento ou disposto a lutar.
Outra manipulação típica, para lá de batida, é pinçar trechos, descontextualizados, de modo a gerar polêmica intencional: polêmica dá ibope, gera cliques, curtidas, compartilhamentos. Os veículos ganham com isso. E ganham por manipular a leitura para lados diferentes, acirrando os ânimos. Quanto mais briga entre os leitores, que não receberam a informação segura, mais cliques, mais grana.
"Dividir para vencer" ou "Dividir para administrar" é outro jogo manjadíssimo. Que o público brigue entre si, enquanto os três poderes (econômico, político, intelectual) correm ilesos por fora fazendo pactos, acordos, conchavos. E o que acontece? Ora, como previam (e provocaram), 200 milhões de pessoas divididas acham que terão fidelidade e lealdade de quem soltou a bomba no meio da torcida.
Lutamos por eles, morremos por eles, acordamos fora do tempo sem ganho algum."Mas já levantamos atirando", não importa em quem ou a que preço. O velho raciocínio que sempre funciona. Quando divido, tenho parte do todo contra mim. Ok. É óbvio. Mas tenho parte a meu favor, brigando por mim. Passo a ter um peso que minha voz não teria. É a voz do povo, "vox populi"!
Sobre esses "balões de ensaio", que andam soltos por aí diariamente na mídia e repercutida nas redes sociais (quando não o contrário), seria bom que pensássemos por um momento: (1) se não li, não tenho como opinar e (2) a quem interessa minha gritaria cega, quem está ganhando com essa pancadaria? Comentei em sala uma frase muito usada desde meus tempos de secundarista, "Eu me reservo o direito de pensar por mim mesma!" Simples assim.
Ando com muita preguiça deste clima: "Não li e não gostei!".

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