Pelo Voto Consciente - Editorial do Estado de Minas, 1994

É a transitoriedade dos
mandatos legislativos e executivos que constitui o princípio básico da
democracia representativa. O cidadão, pelo voto secreto, tem o poder de renovar
os cargos eletivos, submetendo-os ao julgamento popular. O voto, portanto, é o mais
importante direito do cidadão. Não pode ser vilipendiado pela inconsciência,
pelo tráfico de qualquer natureza.
Na Itália, a campanha
pela renovação ética do poder público, que levou aos tribunais mais de 400
políticos e 200 empresários, enfatiza agora, quando se realizam eleições, a
necessidade do voto ético, consciente, responsável. No Brasil, com as eleições
gerais que ocorrem este ano, abre-se oportunidade singular para que os cidadãos
possam remover da vida pública os que não a honraram, por ações indecorosas e
imorais ou por omissão.
É uma pesquisa da
própria Assembléia Legislativa que apontou que
mais de 50% dos eleitores não lembram mais em que votaram para o Poder Legislativo. E mais da metade
não sabe também o que faz a Assembléia legislativa, em que pese o esforço que
desenvolve nos últimos anos para tornar seu trabalho mais conhecido. Qualquer
pesquisa de imagem mostra o quanto difícil será para o candidato a deputado
pedir votos. E a CPI do Orçamento, entre muitos outros fatos de variada
natureza, se encarregou de tornar ainda mais negativa a imagem dos
parlamentares. A campanha pelo voto consciente não visaria somente à eliminação
dos maus políticos, aqueles citados e efetivamente envolvidos em trapaças, mas
valorizar a função, qualificando o voto e explicando o que é representação
popular no regime republicano.
A campanha da OAB
mineira pela valorização do voto é oportuna. E deve alcançar outras entidades
da sociedade civil. É fundamental que ocorra grande renovação da classe
política atual. Que os bons, independentemente de coloração partidária,
permaneçam. Mas não há dúvida de que os problemas brasileiros, o alcance das
decisões, a profundidade das transformações requeridas, exigem políticos
comprometidos com a mudança, representativos de segmentos de opinião, com
independência e visão ampla, com audácia e coragem e que vejam na política um meio
de fazer o bem-comum e não carreira e instrumento de enriquecimento pessoal.
As eleições deste ano
são uma excepcional oportunidade de se realizar uma grande mudança na classe
política. Mas para que isto ocorra é indispensável um eleitorado bem mais
esclarecido. No Brasil, a pouca educação popular é a falta de formação política
levam milhares de eleitores a votar sem a depuração que seria indispensável
para a escolha do bom representante. O populismo, a influência do poder
econômico, a demagogia nas suas diversas formas, a propaganda enganosa e o
apelo meramente emocional; tudo isto impede a escolha racional, baseada em
currículo objetivo, na análise do passado, na real vontade de servir de que são
dotados alguns homens e que configura a verdadeira vocação política. Somente
uma ampla campanha, que atinja a todas as camadas da população, pode ensejar o
voto consciente de que tanto o Brasil precisa nestas eleições.
Estado de Minas - 22 de
fevereiro de 1994)

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