A Pátria de Chuteiras (e amarras...)
Desde a derrota na copa, tinha prometido a mim mesmo que deixaria de dar importância aos jogos da seleção. Mas estava chegando ao Brasil, e o assunto era um só: o gol de Ronaldinho contra a Venezuela. Vi uns 15 replays daquela obra de arte e até agora tenho a impressão de que tudo não passou de mera armação para que o Armando Nogueira pudesse desfiar mais um poema sobre a bola.
Ainda peguei mais alguns jogos da copa América, sempre vistos com o volume baixo, para não ter de ouvir os delírios do Galvão Bueno (que, além de narrador, é médium: prevê, antes de os jogos começarem, que eles serão um sofrimento - pois, ainda segundo o expert Galvão, a alma brasileira é assim mesmo, sofrida, chorada). Tudo legal, bonito, mas não havia ali nenhum time realmente forte. O desbunde veio mesmo com a goleada de 4 a 0 contra a Alemanha.
Porque jogar contra a Alemanha não é uma partida de futebol, é um confronto de mentalidades. Do lado germânico, a mecânica aplicada, a ênfase na tática, a marcação dura. Do lado brasileiro, a ginga, a malemolência, o espetáculo. Não sei até hoje como é que os alemães ganharam tantas copas, porque o futebol é, par excelence, um jogo malandro. Um jogo anárquico, no qual as permutações são infinitas e as jogadas não se repetem. E também revolucionário, por dar espaço a baixinhos, pernetas e demais talentosos que não gostam de treinos nem de exercícios, mas chegam lá e arrebentam.
Por ser o futebol assim, nunca me surpreendeu que não vingasse na Gringolândia. Algumas teses a respeito dele sugerem que o esporte, como metáfora do espírito nacional, deve servir de palco para a glorificação de valores coletivos. Não é de se surpreender que aqui os três esportes mais populares sejam o basquete, futebol americano e o beisebol. Todos são repetitivos - requerendo, portanto, muita prática e esforço - e todos exigem condicionamento físico ímpar: muita força, muito workout.
É emblemático da cultura americana, do “american dream”: o sucesso só vem com esforço e é decorrência direta deste. A vitória, nos esportes, vem para aquele que treinou mais e se concentrou mais. Assim como, na vida, vem para quem estudou mais, trabalhou mais e sacrificou mais sua vida pessoal. Nada a ver com a mentalidade brasileira de que o que vale é o jeitinho, o talento, a inspiração.
Se estão certos eles ou nós, não sei. Mas serviu pra entender um fenômeno curioso: tanto brasileiros quanto americanos se acham o melhor povo do mundo e não imaginam haver, no mundo, lugar melhor para morar. Ambos não podem estar corretos, obviamente. Em princípio, seria de considerar as declarações como bravatas nacionalistas ou miopia. Mas hoje vejo que não é nada disso, e sim que são questões de perspectiva.
Para quem valoriza a transpiração, os EUA devem ser mesmo, o melhor lugar do mundo, assim como é o Brasil para quem é fã de inspiração. Em termos relativos, cada um está bem na sua. Em termos absolutos, digamos que nós somos os campeões do esporte mundial, e que eles são campeões da profissão mundial, que é ganhar dinheiro, viver bem.
Assim, cada vez que revia o gol do Ronaldinho, a alegria pelo sucesso no esporte vinha acompanhada de uma certa tristeza. Aquele gol nos redime e nos prende. Somos tão bons nesse negócio de improvisação que fica difícil abandonar a baderna festiva pra dar duro e dar certo. A genialidade, não raro, é uma praga. Especialmente em um mundo onde são necessárias grandes doses de abnegação e conformismo para o sucesso coletivo.
Gustavo Ioschpe Folha de SP 2002
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