Órfãos de Pais Vivos - Gilberto Dimenstein



  A violência contra os índios não é a constatação mais importante a ser extraída do assassinato de Galdino Jesus dos Santos –os cinco jovens talvez nem sequer soubessem quem estavam incendiando.
     Numa tendência ainda desconhecida pela sociedade brasileira, acostumada a relacionar violência com pobreza, os registros delegacias policiais revelam crescimento nos atos de selvageria cometidos por adolescentes abastados.
     Segundo a Polícia Militar de São Paulo aumentaram 300%, nos últimos dois anos, as brigas envolvendo jovens nas regiões ricas da cidade. A tendência é confirmada nas Varas da Infância.
     No Rio de Janeiro, informa o chefe da Polícia Civil, Hélio Luz, são realizadas cada vez mais buscas em universidades em busca de delinqüentes.
     Estamos, diante de uma doença contemporânea nas classes média e alta, mas antiga entre os pobres: o orfandade de pais vivos.
     Psicólogos americanos têm procurado entender fenômeno semelhante nos EUA. Acusam os pais de serem tão ou mais culpados pela delinqüência dos filhos.
     Autor do best seller “inteligência Emocional”,Daniel Goleman acompanha investigações sobre o comportamento dos jovens. As pesquisas indicam, segundo ele, crescentes sinais de agressividade.
     Há uma aposta generalizada nos meios acadêmicos americanos de que, por trás desses desvios, estaria a desestruturação familiar. Pais não tem tempo para os filhos.
     Para compensar o sentimento de culpa provocado pela distância, adultos não impõem limites e até mimam as crianças, independente do comportamento. Deixam para a escola ensinar ética a educação sexual; se complicar, contratam psicólogos.
     Juntem-se a isso a sensação brasileira de que apenas pobre acaba na cadeia, as cenas de violência banalizadas pela televisão, o despreparo das escolas para lidar com a agressividade e a cultura brasiliense onde pirralhos se sentem autoridade porque são filhos de autoridade –e vamos ter algumas pistas sobre como chegamos ao final do século carbonizado serem humanos a poucos quilômetros da praça dos Três Poderes.                                       

                               Gilberto Dimenstein - Folha São Paulo, abril de 97 -

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