Somos todos violentos - João Paulo Cunha

O maior dano dessa mitologia é jogar o desvio e o erro,
toda a ação violenta, para o outro


A violência é um problema nosso, mas parece sempre que a responsabilidade é do outro. Seja na identificação do culpado (o criminoso, o corrupto, o sociopata), seja na cobrança de ações (políticas públicas e aplicação da lei), o cidadão comum parece desonerado de dar sua contribuição além da exigência de que autoridades e responsáveis pelo cumprimento da legislação façam o seu dever. Como se trata de algo externo, o homem de bem se julga cumpridor de sua função social se fizer a sua parte (trabalhar, pagar impostos e participar dos momentos formais de exercício político, como eleições). Talvez a grande dificuldade em enfrentar o monstro da violência esteja nessa postura de expectativa, ainda que angustiada e sofrida, do jogo social de que todos fazemos parte. A violência não é algo exterior à sociedade brasileira, mas faz parte de seu coração, músculos e nervos.
"Havia quem me indicasse o elevador de serviço."-
Ex-ministra Luíza Barrios
A definição de violência não pode ser construída apenas por seus efeitos. Violência não é apenas o conjunto de atos violentos, mas uma situação social ampla, uma forma de exercício de atitudes, um cenário de possibilidades de ações anti-humanas dado pela ausência de poder. Como explicou a pensadora Hannah Arendt, onde o poder deixa de existir, a violência campeia. Além de não serem a mesma coisa, poder e violência se opõem radicalmente. Apesar da distinção, muitas vezes eles se apresentam de forma conjunta, daí a confusão. Mas é importante distinguir: onde um domina de forma absoluta, o outro está ausente. É possível que, do poder, por seus descaminhos, brote a violência. O oposto é impossível: da violência não emerge nada que preste.
Essa definição, que obriga a pensar o lado positivo do poder (habilidade humana para agir em conjunto em nome do bem comum), explica por que a não-violência precisa ser
muito mais que negação pura e simples da atitude violenta para ser ação determinada em nome de outra forma de poder. A nãoviolência engaja, exige, cobra, convoca, responsabiliza. Por isso, vai além da visão exterior da violência para se infiltrar nas situações que permitem que ela viceje e ganhe espaço de poder. O não-violento precisa sempre ser político, buscar a afirmação do poder no qual a violência não tenha ar para respirar. Menos anjos que políticos, os não-violentos são necessariamente militantes.
No momento em que a sociedade parece determinada a enfrentar a violência, essa
compreensão do caráter político e social do fenômeno pode trazer elementos importantes. E preocupantes. A violência não é algo em si, mas um fenômeno situado; não se trata de tendência psicológica, mas de condição de possibilidade para todos os homens; não se cerca apenas com receitas genéricas, mas exige entendimento de suas raízes culturais. Em outras palavras, a violência brasileira tem a cara do Brasil. Somos um país violento pelo fato de abrigar, em nossa formação e na defesa equivocada de privilégios, o território ideal para o seu florescimento. Somos todos violentos quando destruímos as oportunidades de fortalecimento do poder como exercício de civilidade. Detestar política é um dos capítulos dessa tragédia.
O mais imediato inimigo a vencer é um mito: o de que somos um povo não-violento (não no sentido militante e político de Gandhi, mas no desmobilizador da má psicologia das origens de nossa identidade). O mito, como ensina a filosofia, não é algo que substitui a verdade e se faz passar como tal, mas uma construção que parte da própria sociedade e passa a ser origem de sua explicação. O mito não precisa se bater com a verdade, já que é anterior a ela. Além disso, a função do mito é sempre apaziguadora, leniente e sem poder de crítica. A sociedade que se funda em mitos não precisa de verdade para se justificar. O Brasil
é um país que adora se dizer não-violento, alegre, cordial, equilibrado e justo por natureza. O maior dano dessa mitologia é jogar o desvio e o erro, toda a ação violenta, para o outro. O mito da não-violência impede o país de enfrentar a violência que nos constitui como nação e como povo.
Pode parecer desmedido e injusto dizer que o cidadão cumpridor das leis e pagador de impostos tem em seu peito a semente da violência, quando é tão fácil ver o monstro solto nas ruas, nas casas e até, com mais dano e sofisticação, no centro do poder político e econômico da nação. Mas, exatamente
por não ser evidente, a violência invisível de nossa formação precisa ser pensada, exposta, compreendida e superada. A filósofa Marilena Chauí, no livro Simulacro e poder, desvenda alguns dos procedimentos que fazem com que a violência apareça sempre como algo que não nos diz respeito, sendo mais descaminho que estilo de civilização. Para a pensadora, o fato de o brasileiro se julgar não-violento faz com que ele varra para debaixo do tapete das explicações falsamente científicas as manifestações
do mal. Assim, a violência é sempre do outro, de um “eles” imaginário, que preserva o “nós” de qualquer responsabilidade.
Entre os procedimentos violentos constitutivos do projeto de nação brasileiro está o aparato jurídico. Por esse paradigma, a violência de fato só se manifesta como crime contra o patrimônio (seja a propriedade ou seja a vida). Por isso demorou mais de quatro séculos para que crimes como preconceito e discriminação fossem tipificados como tal. Vem daí, também, a triste inclinação de caráter do povo que costuma questionar direitos humanos como “defesa de bandidos”.
Outro procedimento destacado por Chauí é de natureza sociológica. Por esse padrão de explicação social, há o reino da lei e tudo que escapa dele é exemplo de anomia, que acaba gerando violência. A pensadora observa que, ao definir o campo da lei, o país destaca dois tempos que convivem no mesmo momento histórico: o arcaico e o moderno. O moderno é não-violento, o arcaico traz em si raízes de destruição de laços sociais, a desordem. A autora avança na distinção ao mostrar que nem sempre a modernidade traz ganhos de civilização e que, na via contrária, o protesto contra o chamado “progresso” nem sempre quer dizer regressão. O procedimento sociológico é o que permite que os movimentos sociais brasileiros sejam tachados de atrasados e violentos, quando, muitas vezes, se batem exatamente contra a violência da exclusão, gerada de forma estrutural pela economia “moderna”.
Para completar, a pensadora destaca outra forma mitológica de alimentar o ideário nãoviolento, a reconstrução da história como “produção ativa de amnésia social”. Assim, as
vitórias da elite ao longo da trajetória brasileira são sempre vistas como derrotas do atraso, superação do arcaísmo, reconquista da ordem ameaçada. Esses e outros mecanismos produzem uma sociedade autoritária (substituição da igualdade formal pela naturalização das diferenças, indistinção entre público e privado, patrimonialismo, fascínio pelo Estado forte e desprestígio das manifestações diretas da democracia) que se fundamenta no par carência e privilégio. Tal situação configura o ocaso da cidadania e da consciência de direitos. Quem é carente não se sente digno de direito (fica à mercê da benemerência). Quem tem privilégio acha pouco importante defender o direito de todos (o que significaria reduzir sua situação de vantagem).
O desafio de vencer a violência não será alcançado sem enfrentar os fantasmas que
nos constituem. Passar em revista a própria opinião sobre fatos fundamentais, como direitos humanos, movimentos sociais, reforma agrária, política responsável de segurança e distribuição de renda, é o primeiro passo. Somos todos violen ntos. Por isso somos todos responsáveis.  



Estado de Minas, 16/06/2007 - João Paulo Cunha Editor de Cultura – e-mail: jpaulo.cunha@uai.com.br

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