O Flautista e a Baleia Azul - suicídios entre os jovens
Por Melânia Costa
Entre os piores pesadelos de minha infância, estava o flautista de Hamelin, do conto adaptado pelos irmãos Grimm. Aquela história em que um homem toca magicamente uma flauta e, num cortejo assustador, milhares, talvez milhões, de ratos são conduzidos até o rio onde morrem afogados. A cidade agradece ao herói. Contudo, há um momento em que, estando os adultos ocupados, o flautista toca e o cortejo macabro, desta vez, arrasta todas as crianças do povoado.
O desafio da baleia azul, jogo que finda em morte, despertou em mim esse pesadelo adormecido. De tempos em tempos, surgem notícias e debates sobre algo que envolve e enreda o jovem: histórias em quadrinhos ou gibis, que já tiveram seu momento na berlinda, um jogo de RPG, um seriado macabro, um estilo de música uma seita. Mídia e adultos concentram-se no que supõem ser a causa, mas que não passa de gatilho, pretexto, referência.
Entre os piores pesadelos de minha infância, estava o flautista de Hamelin, do conto adaptado pelos irmãos Grimm. Aquela história em que um homem toca magicamente uma flauta e, num cortejo assustador, milhares, talvez milhões, de ratos são conduzidos até o rio onde morrem afogados. A cidade agradece ao herói. Contudo, há um momento em que, estando os adultos ocupados, o flautista toca e o cortejo macabro, desta vez, arrasta todas as crianças do povoado.
O desafio da baleia azul, jogo que finda em morte, despertou em mim esse pesadelo adormecido. De tempos em tempos, surgem notícias e debates sobre algo que envolve e enreda o jovem: histórias em quadrinhos ou gibis, que já tiveram seu momento na berlinda, um jogo de RPG, um seriado macabro, um estilo de música uma seita. Mídia e adultos concentram-se no que supõem ser a causa, mas que não passa de gatilho, pretexto, referência.
“Um desconhecido chamado meu filho”, texto do jornalista Gilberto Dimenstein, publicado em 1996, expunha o aumento de suicídios entre crianças e adolescentes. 1996! A família se torna um espaço de “desconhecidos íntimos”, apontava o autor. É uma linha de raciocínio. Alunos meus, contudo, ampliaram -e muito- essa visão, apontando causas profundas: sociedade competitiva, pressão por resultados, “bullying”, adoecimento mental, depressão e estados depressivos.
Aterroriza a qualquer um a ideia de crianças e jovens desaparecidos, ou assassinados, ou arrastados por uma flauta encantada, um canto de sereia, que os leve inebriados ou impotentes para águas profundas. Desavisado ou não, imerso em solidão, vergonha ou depressão, o recado que o suicida nos deixa é o de não suportar a existência da forma como ela se impõe. O recado não está no bilhete, mas no próprio ato de desistência.
Culpar a baleia azul e encerrar a discussão, portanto, lembra-me a ironia de Noel Rosa, “o cinema falado é o grande culpado da transformação”. Não é, sabemos. Mas o jogo, que tem levado jovens à mutilação e ao suicídio, é o fio de um novelo que deve, sim, ser puxado. Ao longo dele, muita coisa surgirá. E o risco é de nos vermos, nós adultos, emaranhados nele.
Talvez a gente se dê conta de que não estamos atentos à nossa própria sanidade, nem firmes em nossos propósitos, muito menos certos de nossos valores e convicções. É possível descobrirmos que não temos nos dado tempo para a convivência, para a escuta, para relacionamentos saudáveis, para atos de compaixão, para o colo e o silêncio. Nosso “sim” nem sempre é sim; e o nosso “não” frequentemente é talvez. Triste. Mas nossa sanidade e coerência seriam o mastro ao qual crianças e adolescentes se prenderiam.
Hoje, como ontem, o Flautista não se esconde. Pomposo, como na fábula, desfila pelas ruas da cidade arrastando crianças e jovens fascinados e impotentes em seu cortejo macabro. O Flautista de hoje nos veio sob a forma de poderosos instrumentos inteligentes, alguns disfarçados de celular, sempre na mão, sempre à mão. Nele, o espetáculo, o fascínio de todas as mídias. Nele, o canto da sereia sem que se possa amarrar o navegante a um mastro. Nele, alguém sempre pronto a farejar vítimas e enredá-las, ouvindo-as com atenção e falando a linguagem delas.
Novas tecnologias, em si, não são fadas nem bruxas. O que não se pode esperar é que crianças e adolescentes decidam adequadamente sobre seu uso.
Fonte:
Melânia Costa Linkedin MelâniaCosta.EscreverBem ENEM&Vestibulares 2017 - Português é Fundamental!
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Melânia Costa Linkedin MelâniaCosta.EscreverBem ENEM&Vestibulares 2017 - Português é Fundamental!


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