Em ayapaneco - Ruy Castro

Ruy Castro diz que está levando a quarentena 'com grande facilidade' | O  TEMPO

Leio no Globo que, no México, a língua de uma aldeia está condenada a

desaparecer por falta de fluentes -só restam dois homens capazes de falá-la. Mas, embora sejam 

vizinhos, eles não se dão e não têm nada a dizer um ao outro. Além disso, já estão com certa idade -

75 e 69 anos- e não transmitiram a língua a seus descendentes. Bastará que um dos dois morra para

que ela seja declarada oficialmente extinta.


O desaparecimento de uma língua não é um fenômeno incomum. Acontece o tempo todo e em toda

parte -em arquipélagos, grotões, montanhas, na selva e até nos guetos das megalópoles. Os motivos

são vários: migrações, urbanização, a televisão, a ditadura da língua dominante e até mesmo a

proibição de usar a língua nativa. Mas, sempre que uma língua emudece, a humanidade fica mais

pobre.


A língua em questão é o ayapaneco, da vila de Ayapa, no sul do México. Nos últimos 500 anos, o

ayapaneco sobreviveu ao conquistador Hernán Cortés, aos massacres étnicos, às incontáveis

revoluções, ao peso esmagador dos EUA no cangote dos mexicanos e até à supremacia por decreto

do espanhol (de uso obrigatório). Mas não sobreviverá ao desinteresse de seus jovens em continuar

falando-o.


Quando uma língua deixa de existir, tudo que ela designava vai para o limbo -objetos, costumes,

gírias, cheiros, sensações. Junto com o código, o entorno inteiro se evapora. E é possível que, na

cultura de Ayapa, haja coisas que só fazem sentido em ayapaneco.


Uma receita exclusiva de panqueca, por exemplo, talvez nunca mais seja executada. Ou um jeito de

cantar para ninar, de pedir uma informação, de reagir a uma martelada no dedo. E quem saberá

reproduzir o que um homem e uma mulher ayapanequenses sussurravam um para o outro e que só

podia ser dito em ayapaneco?

FSP 20/04/2011

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