Falta Educação de Berço? - Construindo conteúdo
Amor não é biscoito - ROSELY SAYÃO
Em época de vínculos frágeis, os pais tentam assegurar o afeto do filho dando a ele tudo o que ele quer
A mãe de uma garota de menos de dois anos me disse que estava bem difícil fazer a filha almoçar, porque ela só queria biscoito. Perguntei à essa mãe como a criança descobrira os tais biscoitos e ela me respondeu que ela mesma é que havia introduzido esse alimento em casa.
A Palmada Educa - Marilda Lipp
Pais e mães de hoje, que viveram com intensidade a liberação dos costumes no anos 60 e 70, estão tendo dificuldade em educar seus filhos. Muitos deles simplesmente não sabem se devem disciplinar as crianças. Não sabem quando dizer NÃO, ou mesmo se devem fazê-lo. Isso ocorre porque associam autoritarismo a educação. Só que disciplina é fundamental na criação dos filhos e, em alguns casos, pode-se e deve-se recorrer às tradicionais palmadas como meio de educar.
Em época de vínculos frágeis, os pais tentam assegurar o afeto do filho dando a ele tudo o que ele quer
Como tem sido difícil para muitas mães ensinar aos filhos a importância da boa alimentação. Há pouco tempo para preparar a comida em casa, para estar com os filhos nos horários das refeições, para fazer o lanche que levarão à escola etc.
No mundo da velocidade, ensinar a criança a comer e a conviver com a família em torno da mesa tem sido tarefa quase impossível. Precisamos reconhecer: a oferta de porcarias deliciosas dirigidas às crianças está muito grande. E esses alimentos são muito, muito sedutores. Lanches dos mais variados tipos, biscoitos coloridos com ou sem recheio, salgadinhos crocantes de todos os formatos e cores, frituras mil, chocolates, refrigerantes e muitos, muitos doces.
Temos tentado resolver essa questão principalmente porque a saúde infantil tem reclamado. Sobrepeso e obesidade, hipertensão, taxas altas de colesterol, doenças do aparelho digestivo e distúrbios alimentares -problemas antes restritos ao mundo adulto- agora marcam presença na vida de muitas crianças. Em função desse panorama, vários Estados brasileiros já elaboraram leis para obrigar cantinas escolares a vender exclusivamente alimentos saudáveis e proibir a comercialização de itens gordurosos e industrializados, por exemplo.
Muitas escolas também já começam a oferecer alguns recursos para colaborar com o enfrentamento do problema: contratam nutricionistas, oferecem lanches balanceados, orientam pais e professores, realizam atividades culinárias com as turmas e abordam o tema da alimentação com seus alunos. A questão é difícil tanto para as famílias quanto para as escolas. Afinal, como ajudar a criança a aprender a comer bem? Vamos tentar localizar alguns focos dessa questão.
O relacionamento entre pais e filhos mudou muito nas últimas décadas. Uma dessas mudanças foi radical: os pais têm receio, hoje, de perder o amor de seus filhos. Antes era o oposto: os filhos obedeciam por medo de perder o amor dos pais.
Dá para entender essa virada: em um mundo de relacionamentos afetivos extremamente frágeis, precisamos ter a garantia da permanência de alguns vínculos. Numa época em que o prefixo "ex" se multiplica na frente de palavras como marido, sogra, cunhado etc., nada como tentar assegurar que o bom relacionamento com os filhos permanecerá.
O problema é que isso tem se concretizado de maneiras equivocadas. Uma delas é a atitude de muitos pais de tentar dar ao filho tudo o que ele quer. E o que a criança quer comer? Aquilo que achamos gostoso e que oferecemos a ela justamente por esse motivo. Vamos falar a verdade: queremos que as crianças se alimentem bem por questões de saúde, não é verdade? Mas elas logo percebem que o que lhe oferecemos porque consideramos gostoso não coincide com o que queremos que comam porque faz bem.
A mãe de uma garota de menos de dois anos me disse que estava bem difícil fazer a filha almoçar, porque ela só queria biscoito. Perguntei à essa mãe como a criança descobrira os tais biscoitos e ela me respondeu que ela mesma é que havia introduzido esse alimento em casa. "Por que eu deveria privar minha filha de comer coisas gostosas? Eu só não sabia que ela iria gostar tanto a ponto de passar a recusar as refeições." E devo dizer: essa mãe permite que a sua filha substitua o almoço e o jantar por biscoitos. "Vou deixar que ela chore de fome?", perguntou ela.
A maior parte das dificuldades alimentares de uma criança tem, portanto, origem no tipo de relação que seus pais estabelecem com ela e também com as escolhas que nós, adultos, fazemos do que consideramos gostoso. É ou não é?
Matéria publicada na Folha de São Paulo, 21 de agosto de 2012.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
A Palmada Educa - Marilda Lipp
O problema é mais grave do que parece. Para que a criança aprenda a viver em sociedade, ela necessita que os pais lhe mostrem os limites, as fronteiras entre o certo e o errado. Quando eles não o fazem, a criança se torna instável e insegura. Esse comportamento frouxo não faz com que ela ame os pais. Ao contrário, ela os amará menos, porque começará a perceber que eles não lhe deram estrutura, se sentirá menos segura, menos protegida para a vida.
Muitos pais até tentam delimitar as ações dos filhos, mas ficam com sentimento de culpa quando proíbem algo. Essa atitude ambígua dos pais tem contribuído para provocar o stress infantil e pode ser o ponto de partida para a desestruturação familiar. Na verdade, pessoas que não deixam claro para seus filhos o que eles podem ou não fazer estão deixando de cumprir o papel de pais.
O castigo físico é visto com preconceito. É claro que a crueldade e a palmada a torto e a direito devem ser evitadas. Mas, quando a criança começa a engatinhar ou andar e passa a mexer em tudo, uma palmada na mão será mais eficiente do que repetir mil vezes a mesma advertência. O recurso do castigo físico deve ser usado raramente. Quando a vida do pequeno está em risco, por exemplo. Se a criança está aprendendo a atravessar a rua e insiste em cruzá-la sem respeitar o sinal, ela deverá receber uma palmada. Esse comportamento dos pais tem de ser sistemático, para fazer sentido. Ele não traz prejuízo algum para a criança. Não vai estressá-la nem traumatizá-la, vai mantê-la viva. O que não pode é os pais dependerem da disciplina física para educar a criança.
Precisamos entender que temos as rédeas nas mãos, que controlamos tudo na vida da criança e devemos impor um sistema de disciplina ligado ao seu comportamento. Por exemplo: se a criança não fez o dever de casa, não poderá ver televisão. Se desobedeceu ou foi malcriada, não sairá por uma semana. Mas a criança não deve ser punida na primeira vez que comete um erro. Antes disso, os pais devem explicar por que determinado comportamento é errado e alertá-la sobre as consequências de seus atos e as possíveis punições.
A insegurança dos pais nesse assunto pode levar a situações bastante perigosas. Tive uma cliente cuja filha, uma menina de 12 anos, namorava um garoto de 15. A intimidade entre os dois era tanta que ela já estava achando o comportamento do garoto um pouco excessivo. Mas, a garota não conseguia nem tinha idéia de como dizer NÃO. Não havia aprendido com os pais qual era o limite. Os pais, por seu lado, estavam incomodados, mas não interferiam, apesar de ter conhecimento de que o rapaz usava drogas. Até que a mãe, aflita, decidiu buscar a minha ajuda.
Ela questionava o direito de proibir o relacionamento dos dois. Uma de suas dúvidas era: "Será que eu posso determinar de quem minha filha vai gostar?" Respondi que ela tinha o direito de proibir o namoro, porque a menina ainda não sabia proteger-se. Algum tempo depois, quando a garota voltou ao meu consultório, ela me disse:"Foi um alívio meus pais terem me proibido de sair com ele porque eu não estava sabendo como resolver essa situação." Conclusão: a menina, ainda imatura, precisava de limites.
A criança não nasce sabendo, e o único meio que tem de aprender o que é certo ou errado é por intermédio dos pais. Se não a ensinamos, ela poderá desenvolver um comportamento estranho como forma de pedir socorro. Uma criança manhosa e agitada pode estar agindo assim para chamar nossa atenção para seus problemas.
Enfim, os pais precisam dosar a liberdade que dão aos filhos. Essa liberdade deve depender da habilidade que a criança tenha para lidar com responsabilidades. Quando os pais deixam de punir convenientemente os filhos, muitas vezes pensam que estão sendo liberais. Mas, a única coisa que eles estão sendo é irresponsáveis.
** Marilda Lipp é doutora em Psicologia, em Campinas/SP. FONTE: Revista Veja, 1/maio/1996.
Órfãos de Pais Vivos - Gilberto Dimenstein
A violência contra os índios não é a constatação mais importante a ser extraída do assassinato de Galdino Jesus dos Santos –os cinco jovens talvez nem sequer soubessem quem estavam incendiando.
Numa tendência ainda desconhecida pela sociedade brasileira, acostumada a relacionar violência com pobreza, os registros delegacias policiais revelam crescimento nos atos de selvageria cometidos por adolescentes abastados.
Segundo a Polícia Militar de São Paulo aumentaram 300%, nos últimos dois anos, as brigas envolvendo jovens nas regiões ricas da cidade. A tendência é confirmada nas Varas da Infância. No Rio de Janeiro, informa o chefe da Polícia Civil, Hélio Luz, são realizadas cada vez mais buscas em universidades em busca de delinqüentes.
Estamos, diante de uma doença contemporânea nas classes média e alta, mas antiga entre os pobres: o orfandade de pais vivos. Psicólogos americanos têm procurado entender fenômeno semelhante nos EUA. Acusam os pais de serem tão ou mais culpados pela delinqüência dos filhos. Autor do best seller “inteligência Emocional”,Daniel Goleman acompanha investigações sobre o comportamento dos jovens. As pesquisas indicam, segundo ele, crescentes sinais de agressividade.
Há uma aposta generalizada nos meios acadêmicos americanos de que, por trás desses desvios, estaria a desestruturação familiar. Pais não tem tempo para os filhos. Para compensar o sentimento de culpa provocado pela distância, adultos não impõem limites e até mimam as crianças, independente do comportamento. Deixam para a escola ensinar ética a educação sexual; se complicar, contratam psicólogos.
Juntem-se a isso a sensação brasileira de que apenas pobre acaba na cadeia, as cenas de violência banalizadas pela televisão, o despreparo das escolas para lidar com a agressividade e a cultura brasiliense onde pirralhos se sentem autoridade porque são filhos de autoridade –e vamos ter algumas pistas sobre como chegamos ao final do século carbonizado serem humanos a poucos quilômetros da praça dos Três Poderes.
23/4/1997 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft230408.htm
Um desconhecido chamado meu filho -Gilberto Dimenstein
Pediatra há 25 anos em São Paulo, Leonardo Posternak vem percebendo que crianças e adolescentes adoecem com cada vez mais facilidade -reclamam de dores de cabeça e estômago, vivem gripadas ou com alergia.
Com formação em psicanálise, ele detecta por trás da tendência aumento dos casos dos sintomas de depressão infantil: falta de sono, de apetite, irritabilidade, desconcentração, mudanças bruscas de humor, apatia, agressividade.
O estado emocional, segundo ele, baixaria as resistências, o chamado sistema imunológico, facilitando a instalação das doenças. Apesar de toda a preocupação, os pais estão ajudando ou complicando ainda mais a turbulência emocional dos filhos?
A resposta não é agradável. Nem para os médicos.
" São poucos os pais que conseguem traduzir essas dores e apenas poluem ainda mais o ambiente familiar", afirma Posternak, convencido de que os próprios médicos não sabem orientar sobre os problemas psicológicos.
"Se o médico é desinformado sobre os efeitos mentais no corpo, por que os pais não seriam?", pergunta.
Os pais brigam, cobram, punem ( às vezes, fisicamente), dão lições de moral, dizem como eram mais ativos quando tinha a mesma idade, chamam os filhos de preguiçosos ou imprestáveis, em meio a frases do tipo "eu faço tudo por você".
A criança torna-se ainda mais arredia e distante. Consequência: quanto mais longe da família, mais próxima do consumo exacerbado das drogas e bebida. E, pior, das tentativas de suicídio.
Não é exagero.
Dados colhidos em prontos-socorros, escolas, hospitais psiquiátricos, clínicas de psicologia, centros de intoxicação de várias partes do país apontam: aumenta o registro de tentativas de suicídios de crianças e adolescentes. Tentativa de suicídio é, em essência, um jeito de berrar, de pedir socorro, de ser aceito, da dificuldade em lidar com as frustrações e tensões. Enfim, de ser compreendido.
Os sinais não são compreendidos e, muito menos, cuidados. Ao contrário, doença mental é encarada ainda como falha de caráter. Motivo de vergonha na família e desprezo no trabalho.
Em duas escolas de São Paulo, psiquiatras detectaram que pelo menos 20% dos alunos exibiam algum de sintoma de depressão. Nesses dois casos, os pacientes exibiram notável melhora, a começar do rendimento escolar.
Numa outra escola, psiquiatras da Universidade de São Paulo descobriram que 50% dos estudantes usaram álcool nos últimos 30 dias; 30% usou algum tipo de droga.
Devidamente tratados com terapia ou, em casos extremos, remédios, o paciente melhora, aprende a lidar melhor com as tensões e frustrações.
As causas são várias e, óbvio, motivo de debates acadêmicos; vai dos impactos do estresse urbano aos labirintos da genética.
Algo, porém, é indiscutível: os filhos são vítimas da ausência paterna e materna, provocando a sensação de isolamento e desamparo.
É um poderoso e óbvio estímulo à crise emocional, reforçando ainda mais todos os tipos de estresse.
As mulheres conquistaram direitos, ganhando o mercado de trabalho. Menos tempo, portanto, para os filhos. Marido e mulher chegam às suas casas esgotados, irritados com o trânsito, acuados pela violência, apavorados com a perspectiva de desemprego, contas que não cessam de crescer.
Não querem mais aborrecimentos, conflitos, preferem dormir ou entregar-se à televisão. A família não passa, assim, de uma reunião de desconhecidos íntimos.
Não é um desafio apenas dos pais; eles são, de certa forma, também são vítimas.
Primeiro porque não foram ensinados a detectar estados psicológicos do filhos (e, aí, nós da imprensa temos parcela de culpa).
São vítimas de uma sociedade subdesenvolvida que força o excesso de trabalho, de cidades subdesenvolvidas que dificultam a locomoção, de um nível de violência urbano subdesenvolvido e de um sistema escolar subdesenvolvido que não é de período integral.
E também de relações de trabalho subdesenvolvidas: as empresas deveriam fornecer programas de horário flexível para que pais pudessem acompanhar melhor seus filhos. Os políticos brasileiros deveriam rejuvenescer e reforçar uma agenda mais contemporânea.
Até por sobrevivência, já que cada vez menos são ouvidos pelos futuros eleitores.
PS- Em parceria com a psicanalista Magdalena Ramos, coordenadora do Programa de Terapia Familiar da PUC, em São Paulo, Leonardo Posternak está acabando de redigir um livro de orientação aos pais. Intitulado "E agora o que fazer?", é baseado na experiência de ambos na vida acadêmica e nos consultórios.
Na visão deles, grave não é a ausência física dos pais. Grave é a ausência na presença. Ou seja, quando o pai chega à sua casa, enfia-se na tela do computador ou da televisão. A mensagem captada, então, é de abandono. Adoraria me sentir, neste caso, superior à imensa maioria dos leitores desta coluna -mas, infelizmente, não posso.
Folha de São Paulo, domingo, 29 de março de 1998 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff29039830.htm
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