Por que fumam as crianças? - Eugênio Bucci
Publicado em 1996.
O hábito de
fumar está aumentando entre crianças e adolescentes. Dados do Cebrid (Centro
Brasileiro de Informações sobre Drogas) e da OMS (Organização Mundial de Saúde)
atestam a tendência. No domingo passado, a "Revista da Folha"
publicou uma reportagem sobre o assunto, com estatísticas indiscutíveis. Em
1987, 26% dos estudantes paulistanos entre 10 e 18 anos já tinham fumado. Em
1997, esse número crescera para 31%. A expectativa dos estudiosos é de que ele
siga subindo. Meninas e meninos experimentam o tabaco cada vez mais cedo e se
viciam rapidamente.
Há aí uma
situação curiosa. Os jovens se convertem mais e mais ao tabagismo num período
em que a propaganda de cigarros enfrenta uma onda de vigilância e de oposição
sem precedentes. A mentalidade média do politicamente correto impõe a
segregação dos fumantes, como se fossem os leprosos do novo milênio. Eles são
obrigados a se confinar em salas especiais nos grandes edifícios comerciais.
São depositados em mesas separadas nos restaurantes. Às vezes, são expelidos
para as calçadas. É cada vez mais comum a gente observar, em frente às lojas,
as vendedoras com ar anêmico fumando o seu do lado de fora. Na televisão,
sobretudo na televisão, já não vemos as propagandas convencionais da chamada
indústria tabagista. E, mesmo assim, os fumantes adolescentes se proliferam.
Por quê?
A resposta virá
de muitas frentes, por certo. Talvez passe pela eficácia da dependência da
nicotina no organismo adolescente, talvez se deva a novos incrementos químicos
desenvolvidos pela indústria para apressar a fixação do vício. Enfim, toda
linha de investigação precisa ser levada em conta. Aos que
acompanham criticamente a TV, contudo, um fator deve ser considerado com mais
atenção: a força da publicidade do tabaco em fabricar imagens favoráveis para o
gesto de fumar. A TV é o suporte privilegiado da cultura contemporânea, cultura
sabidamente tiranizada pela imagem, e é aí, nessa cultura, que a publicidade
opera. Opera fabricando valores, como o valor do hábito de fumar.
A propaganda de
cigarro parece banida do vídeo. Mas ela ainda está lá, nos carros de corrida,
nos festivais de jazz e, principalmente, ela ainda está lá como resíduo. Ela
ainda age. Apresento, aqui, uma hipótese a ser levada em conta (entre todas as
outras, claro). É possível que a publicidade do tabaco esteja agindo sobre o
adolescente de hoje a partir dos resíduos que legou no imaginário da criança de
ontem.
A
propaganda de cigarro sempre se destinou às crianças. Não funciona tanto para
adultos. O personagem da marca Camel, um sujeito de calça jeans e fisionomia
dromedária, chegou a ser um dos tipos mais populares entre o público infantil
americano. Ayrton Senna era um ídolo das crianças brasileiras fantasiado de
maço de cigarro (Barrichello tenta fazer o mesmo, mas ainda padece de uma
limitação, digamos, de ordem automobilística). A propaganda constrói no
horizonte da criança um lugar positivo para o fumante. Futuro. Como eu já
disse, ela planta na criança de hoje a imagem que será consumida anos depois
pelo adolescente de amanhã.
Consumir não é
mais comprar coisas corpóreas, mas imagens, signos. O sujeito não consome
objetos físicos, mas atitudes, conceitos, marcas; ele consome para responder
quem é. Por isso, o capitalismo especializou-se em fabricar, mais que
mercadorias, as imagens das mercadorias. Consumir é mergulhar na imagem que se
deseja (inconscientemente) para si. Exemplos? A imagem de quem é livre, adepto
do "no limits" (você se lembra desse slogan?), ou a imagem de quem tem
algo em comum com a moça vazia e bonita (lembra desse?), a de quem é vencedor
(como Ayrton), a de quem não obedece aos mais velhos, sei lá.
Eugênio Bucci (TVFOLHA, FOLHA DE SÃO PAULO, 22 set. 2002
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