O que é violência urbana
Foto de Armando Queiroz, “Sebastião”, de 2011
“Em
nenhum outro lugar a vida está sendo um jogo tão perigoso como nas grandes
cidades. Quando pais estão preocupados com uma demora inesperada de algum filho
na rua, costumam dizer: “é um problema, na cidade grande tudo é possível!”.Pois
bem, quando tudo é possível está instalado o absurdo. Com este, seu filho mais
direto: o medo.
Ao
caminharmos por ruas ou avenidas de amplos centros urbanos, temos a impressão
de que nos deparamos com milhares de rostos que apresentam formidável variedade
de expressões. Esta impressão tem seu tanto de verdade e seu outro tanto de
falsidade, pois, se observamos com maior profundidade, reduzimos as expressões
fisionômicas a dois grandes grupos: os que têm medo e o demonstram, como que se
mantendo numa constante atitude defensiva e os que têm medo e o ocultam sob um
estardalhaço de agressividade, posicionando-se na ofensiva. Ao que parece, isto
é o que há de básico para as fisionomias humanas, na grande cidade.
Assim,
fica claro que o medo é o pão cotidiano dos cidadãos. As casas não mais expõem
suas fachadas românticas, pois cercam-nas murros muito altos para dentro dos
quais ainda triangulam cães de guarda. As pessoas trafegam em seus automóveis
com os vidros bem fechados (...) e, dependendo de por onde andem a pé,
sentem-se como se estivessem em plena prática da”roleta russa”. O espaço amigo
sonhado por Péricles na Grécia Antiga para suas cidades foi subvertido por uma
urbanização ferozmente capitalista que vem excedendo o que o homem pode
suportar. Teme-se igualmente tanto as ações criminosas dos assaltantes quanto
as ações policiais, marcadas por igual ferocidade.E em parte alguma há
segurança no sentido bonançoso deste termo, porque o ‘jogo’ de viver na
metrópole é cheio de riscos a cada passo
- e não se sabe como evitar isso.
Há,
no jogo em questão, elementos previsíveis e imprevisíveis. Nos centros urbanos
mais desenvolvidos e marcadamente capitalistas, uma coisa será certa: todos
competirão. Algumas formas da disputa obedecem a normas conhecidas e, assim,
fazem-se previsíveis – o que as torna, ainda que duras, um pouco menos
assustadoras. Porém, há uma quantidade considerável de formas da referida
competição que aterrorizam pela sua imprevisibilidade e instigam os nervos das
pessoas até a exaustão. Nisto é bom notar que, no mais das vezes, quando a
disputa mantém escondidas as suas táticas, tal ocorre porque intenções
criminosas precisam ser encobertas. O que temos no final, todavia, é que o medo
percorre desde formas previsíveis de competição (...) até os expedientes
surpreendentes das disputas (...).
Onde
há medo, há ameaças; e onde estão as ameaças está a violência. E se torna
difícil abordar o tema da violência, pois que a sua realidade percorre desde as
violências vermelhas (sangrentas) até as violências brancas (como o empregado
da linha-de-montagem que, nas grandes indústrias, é na verdade o prisioneiro de
um campo de concentração habilmente disfarçado).
A
todas essas coisas se somam as oscilações do mercado de trabalho, que
estabelecem a insegurança quanto à manutenção do emprego. Diz o antropólogo
Ralph Linton: “Aquele que não sabe se poderá ser feliz amanhã começa a ser
infeliz hoje.” Esta modalidade de medo está cada vez mais generalizada,
sobretudo em nosso país com suas muitas dificuldades sócio-econômicas. E,
assim, vamos vendo que não há exagero quando falamos de uma síndrome de medo
que hoje subverte a vida humana nos centros urbanos desenvolvidos (...)
É muito difícil compreender o que se passa a nossa
volta, na cidade grande; “compreender” é, no entanto, um exercício humano de
sobrevivência (física e psíquica). Nós, seres humanos, “compreendemos” para
viver e jamais conseguimos conviver, em mínima situação de sanidade, com o
caos. Muitas vezes, o mais terrível bilhete que um suicida deixa não está no
papelzinho, mas em seu próprio ato de desistência. (Morais, Regis de – O que é violência urbana
– São Paulo, Abril Cultural – Brasiliense, 1985, p. 11-18. Texto adaptado )
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